Saneamento: Má gestão e falta de planejamento no setor, afirmam especialistas

A crise é inédita e gravíssima e está apenas na metade

Discussão sobre crise

A crise da água foi anunciada e é urgente um choque de gestão e planejamento, pois os obstáculos são vencidos com vontade política e determinação, mas sem a criação de novas tarifas e impostos. Com esta observação, Nádia Paterno, diretora da divisão de saneamento básico do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), abriu os trabalhos do Workshop de Saneamento Básico: soluções para a crise hídrica do Estado de São Paulo, realizado nesta quarta-feira, 22/7.

A crise é inédita e gravíssima e está apenas na metade, sinalizou Alceu Guérios Bittencourt, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental de São Paulo (Abes). “Não sabemos como ela irá evoluir, mas foram feitas algumas ações para o seu enfrentamento”, disse, citando o controle de pressão – que não havia sido usado antes -, a flexibilidade entre os sistemas, a ampliação de fontes de água bruta e o uso do volume morto da Cantareira.

“É preciso refazer o planejamento à luz de novos dados”, avaliou, sugerindo soluções combinadas, o uso de águas superficiais, melhor controle das águas subterrâneas, a revisão de outorgas individuais, além de novas modelagens com soluções combinadas, como o reúso.

“O país esqueceu de planejar”, criticou Newton de Lima Azevedo, um dos governadores do Conselho Mundial de Água. Há um “acordar bacana”, justificou, ao afirmar que sempre fomos educados que existe água em abundância e jamais pensaríamos em uma crise dessa magnitude.

“Nós conseguimos controlar o incêndio, mas não equacioná-lo. Haverá novos incêndios”, uma metáfora utilizada por Azevedo que apontou alternativas, como o reúso e a dessanilização da água, que depende de tecnologia. “Tudo isto não é novidade, mas não estava no cardápio e é preciso sair do prato feito e da água oferecida por São Pedro”. Outra saída é a parceria público privada (PPP) a fim de trazer os recursos privados para projetos, mas é preciso garantir segurança.

“A sociedade não tem ideia do custo da água”, disse, e citou os investimentos necessários para a universalização da oferta até 2033: R$ 20 bilhões/ano. Em 2014, foram investidos R$ 9 bilhões, no Brasil, menos da metade do necessário. Das 26 empresas estaduais, 20 têm receita menor do que as suas necessidades operacionais. Portanto, há uma grande equação a ser resolvida, na conclusão de Azevedo: “tem muita gente onde não tem água e muita água onde não tem gente”.

O último participante, Jerson Kelman, presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), criticou a estrutura tarifária antiga, herdada da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp). “Não faz sentido a tarifa de esgoto ser diferente da aplicada à água, por exemplo. Não tem sentido as prefeituras pagaram caro e ficarem inadimplentes. É preciso repactuar a tarifa com os usuários. Está na hora”.

Kelman enfatizou o incremento do reúso de água para a agricultura, a indústria e o consumo humano, em parceria com o projeto Aquapolo Ambiental. Para o presidente da Sabesp, a crise hídrica tinha “baixíssima” possibilidade de ocorrer, mas Nádia Paterno, do Deinfra, lembrou que já tinha havido alertas sobre a necessidade de reforço do sistema. “Há todo um histórico de projetos que mostravam a necessidade de obras de expansão que não foram feitas”, disse Nádia.

Kelman reforçou que não vê necessidade de rodízio em 2015 após ações como a utilização de reservas técnicas, transferência de água entre os sistemas e o bônus dado a quem conseguiu economizar em sua conta, além da diminuição da pressão nas tubulações. Outras ações citadas foram as obras sendo concluídas, como o Sistema São Lourenço e a conexão Jaguari e Atibainha (ainda em fase de licitação).

Kelman frisou que a água também está mais cara porque é buscada cada vez mais longe. Ele também defendeu a associação com a iniciativa privada e, questionado, negou que ocorram grandes perdas no sistema: “estão entre 28% e 29% as perdas totais (físicas e comerciais, como roubos e fraudes). A redução dessa perda é de 1% ao ano, índice igual ao do Japão”.

Ag. Fiesp

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